Acima das Cidades
 
Há um vento cortante a desenhar com arranhos os caminhos dos pássaros,e também fazendo em fatias para me servir o azul aberto.

Acima das Cidades há minha eternidade esperando eu chegar em casa com flores, ela aguarda na janela enquanto assiste os mundos de cimento e pressa.

Há paredes por lados bem daqui de baixo, então levanto acima das Cidades, eu digo que vi, e que vi por dentro, por todos os cantos o que há em acima das Cidades, e esperava por mim deitado na grama todo o azul do céu, eu cheguei e deitei com ele.

Eu vou contar sobre o vento cortante, e sobre as muitas fatias do tempo enviadas para meus amores assistidos, esses dias tão cheios de ar, tão cheios de pressa que no meu peito pesam como cimento, eu inteiro feito de Cidades, cheio de gentes e de esperas, e acima dos momentos, mas eu fico esperando ser devolvido a minha amada, e para sua janela, onde aguarda vendo o azul deitado na grama, esse moço lindo cheio de paredes abertas, e olhando para mim bem acima das Cidades, eu por dentro levando flores.

domingo, 30 de março de 2008 - 01:24
 


Little Crazy
 
Ninguém sobrevive sem um pouco de loucura, e também escutei muitas músicas quando ouvi sua voz, não tenho como esconder, e principalmente não tenho o porquê.

Na vida há algumas loucuras pequenas que valem a pena, e se houver punição, eu terei dito a mim sobre o crime que teria sido não ter cometido, e não ter estado contigo de alguma forma me deixaria sozinho, muito mais do que o agora, mas num monte de tempos dentro do significado da palavra prazer, plenitude, conexão e amor.

Se é para ter alguma coisa de doido, gosto de ter alguns parafusos a menos por ter um coração a mais.



For you, the you of my "I love you".

sexta-feira, 28 de março de 2008 - 22:28
 


Dragões Interiores
 
Qual maior inimigo que a força inteiror?

Um fogo natural, uma pressão íntima torcendo os significados, os tempos, os entendimentos emocionais.

Qual maior inimigo que a ausência desse combustível?

Um buraco triste e ventilado, uma brisa fria em lugares escuros, ouve-se o barulho das árvores roçando-se, mas onde estão as pessoas? Ou os valores? Quero sentir tudo ao meu redor, mas falta-me a chama a iluminar as cores.

Esses dragões que revoados, esses dragões guardados em cavernas, esses dragões indomesticáveis, onde estão que chegam e vão com asas só deles, com céus só deles, com luas apenas deles, onde e como guardar em mim a sujeição desses bichos que quando longe faz tudo ser noite, e quando perto tudo se torna uma batalha em alturas lunares, como e onde Dragão?

terça-feira, 25 de março de 2008 - 09:18
 


Restos Infantis
 
Há muito mimo na televisão para as crianças de hoje, aliás, há muito mimo e carinho para todas as crianças da sociedade próspera, e isso é um dano terrível ao futuro delas. Nem falo da flacidez que se cria em seus espíritos, mas da infância que resta mesmo já em passados muitos anos para além da maturidade.

As crianças de hoje em dia têm acesso a um grande número de coisas piscantes e coloridas, um sucesso incrível se tratando de oferta em atrações para o seus dias. Mas há uma semente ruim plantada em cada um deles, uma promessa que seus futuros serão baseados nessa bonança, e suas mentes darão valor à poesia ao invés da criatividade, e também haverá atração pelo caminho despretencioso ao invés do desenvolvimento compromissado e árduo.

Eu posso estar sendo ranzinza, mas eu acredito nisso, não gosto de ver meus amigos já com mais de vinte anos de idade inchando-se de saudosismos e maneirismos em relação aos seus heróis de desenhos super coloridos e super movimentados.

Estão animados a assuntos sobre graus e níveis de força em personagens esdrúxulos, sobre façanhas estúpidas como sangrar, ou então conquistar planetas mil vezes, e também proteger o mundo de inimigos cada vez mais ridículos, e os mistérios vão se esvaindo, versus a uma compilação emocional que os prometerá a sensações de que tudo será como o colorido tempo de suas infâncias.

Nessa tenra idade eles deveriam ser expostos a sensações muito mais rústicas e valiosas para o carácter, mas isso está longe de acontecer em massa, eles deveriam sentir o valor das coisas, se sujarem com a terra, e levantarem obras válidas para o grupo, mas preferem destroçar corpos virtuais, prédios virtuais, almas virtuais. É assim que está sendo criado o futuro, uma civilização acostumada a uma cultura fútil, cara e sem humanidade, um super prazer à nova poesia e estética, versus uma relação profunda com a natureza e a simplicidade do indíviduo humano.

Eu sinto muita falta de minha infância com dificuldades financeiras, pois hoje eu sei o quanto por conta disso eu tive que encontrar em outra pessoa a pessoa que eu sou hoje, mas essas crianças estão buscando serem seus heróis de bits, e os coloridos, as futilidades avançam por entre os anos, domesticando o espírito criativo na sensação de explosões, de cidades espaciais impossíveis, de inimigos cada vez mais distantes da realidade, as questões de personalidade foram substituídas por arquétipos bem claros e delineados, um mundo de personagens mentirosos mesmo quando se prometem parte de uma proposta sincera.

As crianças estão acostumando-se a sentir que o mundo delas não é o nosso mundo, cada vez mais e mais está fácil trocar o valor do chão, da terra, do ar, da água e dos ruídos naturais pela proficuidade dos artistas atuais, uma inundação de belezas desencontradas, dopando os futuros com o mesmo descompromisso chamado individualismo, ou então inabilitando os homens e mulheres de se comunicarem como seres maduros, e os levando a trocar figurinhas como no colégio.

E a inocência que antes era não conhecer os segredos maravilhosos da vida, agora é não conhecer a vida enquanto se descobre a razão de ser em todos os mistérios dela.

Mas essa traição de culturas vai tornar o mundo tão tedioso que o futuro engolirá a si mesmo, e eu vou ver a arrogância da oniência em cada criancinha cheia de palavriados sobre seus iguais com a mesma força de recharço, essas meninas e meninos prontos para desfazerem-se dos outros em nome de suas realidades cada vez mais virtuais.

E o mundo delas será ultra-compactado num formato de vídeo de super resolução, e caberá num trequinho minúsculo que toca, grava, reproduz e dança seus filminhos pretenciosos, tudo legendado ou escrito por um analfabeto metido a hacker que pode fazer o mesmo que grandes empresas há vinte anos atrás.

Uns chamarão isso de progresso, mas eu lembrarei de Prometeus e o roubo do fogo.

domingo, 23 de março de 2008 - 09:43
 


A Sombra
 
Toda Verdade gera uma sombra quando é enfrentada pela Esperança, nesse lugar escuro fica a semeadura dos idealismos, dos otimismos, dos medos e dos sonhos, tudo isso são outros nomes da Mentira.

Mas Mentira nem é um mal terrível, uma prova decisiva capaz de encriminar uma pessoa em rigores absurdos de lei, não... ...nem é. Pior que a Mentira é a motivação a mentir, esse sim é o estado mais perigoso, e o quê sempre gera uma Mentira é inevitavelmente uma Verdade.

Ora, se toda Mentira tem uma motivação realista, mesmo que escondida, mesmo que abstrata, mesmo que cruel, ainda assim a Mentira em si é o produto, a Verdade sim, é grande inimiga do homem.

Mas eu já me vi mil vezes defendendo a Verdade, dizendo até que minha única religião é a Honestidade, sim, fiz! Mas eu estou querendo ser mais do que uma vez honesto, e leio as circunstâncias assim, e posso dizer sem medo que o quê compele originalmente a uma mentira são as Verdades.

E como vencer um sol ao meio-dia? Impossível, a não ser se procurarmos uma sombra, e onde está escuro, se esconde tudo da revelação.

O mais certo é nos expormos, seja ao sol ou ao juízo, seja a nós mesmo ou aos outros, mas ainda assim a Verdade é que será a criminosa, na hora de devorar a nossa pele com seus raios fumegantes, ou então quando ofuscar o coração de todo amor ao dizer sem ternura que dois mais dois é quatro.

Não quero um subterfúgio para mentir, até porque não é meu esporte predileto e muito menos meu talento mais eficiente, é simplesmente uma reação, uma reação a chicotadas que recebo no lombo a carregar em carruajem minhas sensações de realismo.

Mas e se a Verdade não for a criminosa, mas sim a nossa Inocência em ter ido de encontro com o dia mais claro do ano? Quem realmente é culpado pela maldade da Mentira? A Verdade é um astro-rei dominante de si mesmo, e sem mãos para acariciar quem o contempla, antes disso lança sua solidez pelos minutos afiados dos conceitos inabaláveis.

Guarde então muitas perguntas, elas também criam sombras, a Verdade é inimiga da gente, e também nosso tabelião mais significativo, vou negociar com a escuridão as melhores mentiras para proteger-me do sol, vou falar que vendo e compro esperanças, que vendo e compro elogios, que vendo e compro sonhos, que vendo e compro almas.

E minha Inocência escreve tudo isso escondida na noite, essa, um quando que semeia sonhos.

 


As Tempestades Avisadas
 
Ouvi os murmúrios antigos, os receios de gente antes de mim vieram a falar sobre as pessoas em meu futuro, a falação persiste, e na escuridão do horizonte distante há um fio de morte encerrando o sol antes do seu pôr, eu conheço essas ladainhas de muito tempo já, ergueram elas as pirâmides, os altares do crescente fértil, os fóruns em todo império, e também os corações dos exércitos, antes e depois de mim as tempestades se prometem entre si, um rio que vem do céu quer encher todos os cantos entre as montanhas, e o sol morrerá no vale do futuro, porque é assim o medo, a tradição da covardia, a nos avisar dos anos que virão e temer pelos que passaram, reciclam os muitos leitos de sangue, as muitas idéias de morte, de glória sobre o sol, e a Verdade se impugna nas paredes antigas dos velhos templos, convidada a rezar por si mesma, enquanto os trovões ressoam em todas as direções de nossos caminhos, ao lado de seres humanos que semeiam tempestades no peito de um dia ensolarado.

 


A Religião dos Dias
 
A tristeza é um projeto grande para guardar a felicidade, no entanto, nem toda alegria ilumina os salões construídos, mas mesmo uma pequena vela pode fazer de uma caverna um santuário.

Para que teu caminho seja em direção ao meu, acendo você dentro dos ambientes de cada idéia.

Beijos a você que vem, não apague a luz: tudo é sagrado.

quinta-feira, 20 de março de 2008 - 16:31
 


Carta de Resignação II
 
Não há como segredar com ninguém, e comigo menos ainda, nem meu pertence psicológico mais protegido e aterrorizado ficou sem saber que somente eu posso desdobrar os tesouros, cansei de fingir, agora tenho que escrever uma carta para todas as minhas coragens, todas elas cavalgando em idéias ousadas sobre assuntos fora de meu reino, mando minhas resignações profundas a todas elas, chamando-as a fazer-se unidas e assim resumirem-se em forças. Preciso da firmeza pequena, mas definitiva, de um novo tempo, um tempo onde só eu sei como sair de mim.

quarta-feira, 19 de março de 2008 - 00:42
 


Carta de Resignação I
 
Ainda não sei como envenenar e destruir a população de idéias que consomem meu espírito, falo das idéias cheias de anteninhas e perninhas, carregando uma a uma as folhas da árvore destruída à mordidas, picotadas quase que atomicamente pelo consumismo exagerado de todos nós, cansei dessas formigas dentro de mim fazendo dispensas volumosas de ressentimento político, e eu ainda não sei dar um fim nessa praga criativa.

Estou escrevendo a todas vocês desejosas de um Gustavo ativo, como se fosse o formigueiro o cúmulo da atividade civil entre todas vocês, vou dizer e uma só vez: não praticarei salvação nenhuma! E se sou teu formigueiro de pensamentos, tomarei todos os dias as águas fortes de uma resignação sincera, minha honestidade comigo me diz que não posso mais carregá-las, e nem mesmo sair em defesa de tudo que existe. Essas idéias de ajudar o mundo e o universo terminam por aqui, não que eu deseje um final triste e vingativo para a civilidade que me rodeia, mas darei meus passos e cultivarei meus orgulhos a partir de um formato diferente dos de vocês, eu não posso ser o que essas idéias excitam, e se eu tiver que ser algo dentro dessa proposta haverá de ser do meu jeito.


Primeira carta, a todo movimento político dentro de mim.

quinta-feira, 13 de março de 2008 - 07:32
 


O Labirinto Esquecido
 
Estamos todos perdidos, estamos prometidos a uma infinidade de caminhos, a loucura se instalou em todas as almas, e o vento sopra a si mesmo, há tão pouca força em mim, e toda ela sente apenas medo, que eu realmente resolvi esquecer o resto, os outros caminhos, e ir por um só como se fosse uma rua sem esquinas, sem bifurcações ou paradas, não conheço mais a necessidade dos mapas, e nem dos gritos ao redor dizendo que o mundo é muito grande e perigoso, se for realmente, e se for parte do meu destino eu saberei e saberei com o orgulho de quem conheceu o centro dessa razão. Estamos todos perdidos, estamos prometidos a uma infinidade de caminhos, a loucura se instalou em todas as almas, e o inferno tem mil portas em direção a gente, vou repetir isso tantas vezes quanto puder, não me sinto mais com forças nem para sentir medo. Visitarei o lugar mais longe possível de tudo, ao chegar dentro da razão mais verdadeira vou dizer que esqueci todas as passagens por trás de cortinas bonitas ou feias, e então deitarei descansado da angústia que é viver andando nessa modernidade instalada.

 


Medo de Perder
 
Conheci as eras glaciais bem de perto, eu passeava por entre meus músculos e minhas especulações, havia neve, gelo e mares congelados, por todo canto não se encontrava nada de mim, e eu estava por todos os lados, eu conheci as idades mais frias no meu nome, os anos gelados em um vício chamado receio de perder, meu sangue virou grandes balsas de pedra, e eu paralisei diante de tudo, então não passeei e nem fui longe com o tempo, o tempo ficou escasso, parecia que tudo era lâmina perigosa e cada vez mais ameaçadora, atravessei muitas geografias, não encontrei nada de mim por aí à fora, eu conheci o mar duro como o chão, e o chão branco como o céu, eu conheci tudo em seu tom gelado, eu andei por onde podia, caminhava perdendo pedaços dos meus pés no frio que me agarrava ao solo, eram colinas e mais colinas o cubo de gelo do meu coração desnorteado.

quarta-feira, 12 de março de 2008 - 20:05
 


Ervas de Mim
 
Fiz um chá com toda minha história, colhi as ervas que brotavam pelo jardim, era um dia de chuva, parte do doce na bebida vinha do cheiro no ar, e o ar era frio lá fora, aqui dentro é quente, como uma brisa de montanhas ensolaradas e de mato baixo, havia o suave odor de folhas secas, e se estendeu por todo meu caminho a essência que tomei, passou pelos horizontes, ferveu em saquinhos de tentativas, e o sabor foi gratificante, tomo esse chá vindo de terras longínquas as quais deixo para trás, tomo para ficar em paz comigo, todos os dias vou no meu jardim colher as ervas de mim pelos cantos, trago as montanhas, as chuvas, os odores de mato aquecido, e a cor castanha dos caminhos passados, eu sinto paz quando fervo esse cultivo de essências, bebo com respeito ao calor acendido na ressurreição do melhor nos fatos, e meu coração se aquece nas brisas aqui dentro.

terça-feira, 11 de março de 2008 - 03:13
 


O Anfitrião da Pergunta
 
Eu conheço a mim mesmo, e sei o quê me define entre os outros. Eu sou o Anfitrião da Pergunta, sou um convite para qualquer um chegar ao universo da dúvida, talvez pelo simples prazer de contrariar ou pela necessidade de fazer novos caminhos, eu sou odiado por quem se demora na minha companhia, eu não acredito em nenhuma resposta, tenho a pergunta como minha vida.

Isso é bom? É sim, mas nem tudo que é bom é bom, digo, nem tudo que faz bem é gostoso.

Mas eu sei o saber de mim.

quinta-feira, 6 de março de 2008 - 18:59
 


A Ilha
 
Os barcos visitaram todos os oceanos, grandes caravelas produziram os mapas de uma antiguidade já conquistada, os segredos do mundo foram enfim abertos, e a revelação de tudo está no traço dos mares singrados, eu tenho para mim que todos ao redor vivem em continentes, e esses todos são os próprios continentes, eu sou uma ilha cheia de barcos indo e vindo, uma ilha visitada por todas as águas de todos os cantos marinhos, e também tenho ao meu redor uma imensidão de mundo para dizer que sou pequenino, do tamanho ideal para se refugiarem em mim e de mim, sou pequeno demais para ser mapeado como um continente, e todos os outros ao meu redor são o continente, alguns saem de si para virem até mim, se refugiarem em mim e de mim.

terça-feira, 4 de março de 2008 - 02:11
 


A Quimera de Cada Dia
 
Tantas faces quanto seres diversos, é o corpo que faz a explicação do meu dia, o Sol ilumina o trajeto qual pecorre, revela as figuras nascidas à noite, quando ele dorme do outro lado do horizonte, tudo aqui dentro de mim se acorda em vontades de mil rostos e mil fomes, durante a noite novos monstros vão surgindo no meu caminho íntimo, uma rota por onde passa o coração do meu calor - a inocência - e eu sei que ela bate forte, e cospe fogo atrapalhando todos os reinos que ergui no dia anterior.

Minha batalha tem sido esconder as confusões em todas as mil faces, não quero nas minhas costas a luz fervente do sol ou seu peso de estrela rainha, chega de olhar mil vezes para todas as direções, posso até aceitar a noite, e as quimeras escondidas na promessa de nascerem, mas a luz em tantos leitos de fracasso me chama à loucura.

Eu quero dormir do outro lado das montanhas, fugir num Pégassus amado, quero apenas um horizonte todos os dias.

segunda-feira, 3 de março de 2008 - 04:36
 


Inimigo Meu
 
Eu viajo para os lugares usando um corpo complicado de guiar, ele foi muitas vezes direcionado por um motorista descontrolado, e por conta disso esbarrei esse veículo muitas vezes, até o ponto do interior dele ter muita coisa quebrada e mal consertada.

Esse sentimento de estar vivo é grande parte(ou totalidade) o barulho que esse veículo faz quando anda entre as paisagens, escuto de mim o quê significam as coisas, e esse som não é fiel à suavidade da vida, faço barulho com qualquer chão que rodo, e muitas vezes não acho possível enfrentar uma ladeira, também paro nas esquinas cheias de cruzamentos, paro e deixo o cansaço de viver nesse veículo escolher para onde vou.

Seria simplesmente ideal trocá-lo, pegar meu corpo tão vitimado por minha outras épocas psicológicas e jogar fora, logo em seguida pegar um modelo 2008 e sair por aí rodando uma nova vitalidade. Mas conheço os limites da fantasia.

Esse inimigo que tenho já contou demais com a amizade por mim, e eu o traí, acidentalmente o traí, o violentei, e até mesmo fui vítima junto com ele de "gentes à fora", mas principalmente fui vítima de mim e dele o tempo todo.

Para eu ter um veículo recuperado vou ter que combinar uma fase de reparos, e sentir devagar o som das coisas quando passo por elas, sem deixar me perturbar por minha produção interior.

sábado, 1 de março de 2008 - 15:53
 


A Caixa de Fósforos
 
Em um cruzamento de ferrovia sentei e esperei pelo Diabo, ele estava no final da estrada, o sol comia a pele do meu rosto, suado e cansado, deixei de ver a imagem dele distorcida pelo vapor do chão, e fiquei a olhar para baixo, algum tempo depois, já bem perto de mim, ele cospe do lado e pergunta:

"- O quê faz aqui?"

"- Vim te ver, quero saber sobre a caixa de fósforos."

"- Não posso te devolver, você está aceso, irá acender todos os outros palitos."

"- Ok, conheço essa regra, mas vamos, deixe-me ver se ela está contigo."

O Diabo - vestido com uma calça de algodão marrom esfarrapada - põe a mão no bolso
da camisa listrada, tira a caixa de fósforo e a ergue para que eu a veja.

"- Sim, agora me dê ela aqui."

"- Não, eu não posso fazer isso."

"- Vamos Diabo, me dê essa porcaria de caixa."

"- Não, ela é minha e você não pode acender todos os palitos de uma só vez."

O Diabo então ajeitou o chapéu de pano, colocou a caixa no bolso novamente, e me perguntou:

"- Para que você a quer?"

Não aguentei, e como viciado em plena fissura, comecei a chorar sem dignidade, e só depois de tentar esconder o rosto com os punhos, amassando meus olhos em um impedir que a vergonha se alastrasse, terminei então desmanchado em falas sem sentido e desesperadas, babando cada palavra em meio às lágrimas:

"- Eu cansei."

"- Eu cansei!!! Tá bom?? Eu cansei!!!"

"- Não quero mais essa porra de ficar aceso."

"- Você não pode mais fazer isso comigo, eu cansei desgraçado!!!"

O Diabo esperou que eu repetisse algumas palavras e que eu chorasse até nem mais soluços sobrarem em mim. Quando eu já sem força, sem respostas, sem perguntas, sem dignidade, só com ele diante dos meus olhos, foi que então disse:

"- Dormirá aceso e morrerá aceso filho da puta."

"- Essa caixinha que guardo vou acender todas as palhas do mundo ao teu redor, colocarei nome teu em cada fogueira ridícula e fumacenta."

"- Você vai se achar o começo e o fim de grandes obras, vai acreditar em cada montinho de possibilidades, e eu vou por trás incendiando outros para te animar em festa só minha, ah! De qual idéia você acha que tiraram o inferno?"

"- Agora vá, pegue seu caminho, ainda tem muitos fósforos queimar tua vida."

"- Vou te acender em cada montinho de gente, de idéias, de estradas."

Meus sons de choro ainda fugiam do meu nariz e boca, guardei uns segundos com a resposta no meu olhar bem rente ao do Diabo, então coloquei minha mão na cintura por trás, e saquei uma arma, para então quando apontada pra ele dizer:

"- Não!!! Não fará mais isso comigo."

Sorriu e ouvi sua resposta:

"- Achas que pode me matar?"

Dei tantos tiros quanto tinham no revólver, ele caiu ensangüentado no chão, engasgando com o próprio sangue e dentes, aposto que se perguntou como eu consegui essa proeza.

Tirei a caixinha de fósforos do bolso dele, e todos os palitos acenderam ao mesmo tempo, os joguei sobre o corpo debatente de Satanás, e cuspi minha derradeira chama:

"- Você é a última fogueira que acendeu."


            Lopes Castro Gustavo


 
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